
Fotografia, Autor Desconhecido
Dias Impuros…
Dias Confusos…
Dias Libertinos, Obscuros…
…
Hoje…
Um deles… olho ao espelho, sem saber o que vestir…
Pele húmida… gotas de um banho tomado em contornos de vapores de espera….
Água quente em labaredas de suor e lágrimas…
Ar frio em arrepios de fraquezas, exultações e melancolias…
…
Cansaço …
Refém de meses envolto em vazios dispersos…
Que perduram e que mendigam por memorias e certezas esquecidas, amor perdido…
E que aquecem na proximidade e anseio de um toque alheio e único no corpo…
…
Brandura …
Cilada de um único dia que implora por um repouso da mais doce recordação…
Que a encaminha nas ondas dos seus salpicos mais limpos, puros, gotas perfeitas e eloquentemente sãs…
E que perfuma embrulhado em espuma …dissipando-a onde é esquecida em exaltação…
…
Dias…
Impuros…Preciso adoçar o amor para não recordar o que quero esquecer…
Confusos…Preciso salgar a volúpia para não relembrar o que não quero viver…
…
Tempo…
Dias Impuros…
Dias Confusos…
Dias Libertinos, Obscuros…
…
Lembrei-me do que tento esquecer…
Lembrei-me do que tento recordar…
…
De Dias Vazios …
…
…
Hora…
Da sua chegada.
Contornou-me com um sorriso.
Não fixou o olhar.
Não se aproximou.
Calças justas, negras, contornando um corpo esculpido no tempo, com cuidado, saudável vida de quem a olhou sempre com rigor e ponderação, imagem e saber.
Blusa branca, solta, quatro botões a unir dois lados de um tecido que lhe envolve e cobre a nudez. O primeiro botão, servindo de aconchego ao seu soutien, limitava a junção entre os diferentes tecidos e a linha de união dos seus seios, porto de abrigo ao fio de prata que outrora lhe presenteara e que suportava a esfera em forma armilar, símbolo temporal da minha paixão.
…
Sentou-se cuidadosamente a um canto do sofá.
Optou pelo caminho mais longo possibilitando pela sua escolha passar junto de mim, soltando o seu novo perfume, que desconhecia. Não era o meu, esse que ofereci, expoente do meu desejo. Essa Luz Azul, da qual me recordava com saudade, era outro! O seu odor natural predominava, relembrando a sede que me mantinha ávido de um gole, trago, beijo, mas a essência de um novo perfume perturbava a origem e a mudança para um outro.
…
Olhava em silêncio e em redor como se quisesse relembrar de um espaço, que já fora seu, ou descobrir uma única diferença desde a sua ausência.
Convergiu na minha direcção, os olhos cruzaram os meus interruptamente, sorriu para mim não com os lábios mas com o olhar.
Deitou-se no seu antigo canto, sofá branco onde tantas vezes soluçou de prazer e gemeu por amor. Com os dedos do seu pé direito retirou delicadamente o sapato cinzento do seu oposto, repetiu o gesto inverso e perguntou-me se podia se deitar, já aninhada na depressão que era sua e que originou… por tantas vezes repetir o mesmo gesto.
…
Retorquiu que tinha frio e se eu não poderia fazer algo para cessar tal desconforto.
Semi-encerrei os meus olhos, rasguei o sorriso e lembrei-me da dor e mágoa daqueles eternos dias vazios que me tinha imposto.
…
…
Dias lascivos, amargos, libertinos e únicos de um excesso Imundo…
Devassados na doce podridão à perfeição de um comum Odor…
Dias despidos de ternura, vazios e isolados de um pequeno Mundo …
Obscuros, confusos na fuga e incerteza de um sincero Amor…
…
Foram esses dias de lembrança que me subjugaram, amei, recordei e tentei desprezar… dias que de perfeitos no poder e domínio se sucumbem na fragilidade da falta…tornando-os… em Dias Vazios …
MABA
