Friday, December 16, 2005

Pela Voz de Um Anjo


Fotografia, Anne Geddes


“…Duas crianças a correrem no meio de flores do seu tamanho, como se de uma floresta de magia se tratasse; a brincar, a sorrir, a beijar a vida com um olhar de inocência…sem demónios; a abraçar o mundo com um sorriso ingénuo… sem desilusões; e nas suas mãos a esperança de um futuro, no olhar a procura de um amanhã de sonho, esperança, alegria, felicidade, com e pelos conceitos por que vale a pena existir…

…É assim que ainda hoje os vejo, os meus homens que serão sempre meninos, os meus dois filhos que Amo, fruto de um Amor-perfeito pelo qual me sinto abençoada e eternamente Amada…

…Os meus meninos, os meus anjos, as minhas razões de viver. Nas suas veias corre-lhes o meu sangue, o meu e o do meu eterno Amor; sangue do nosso sangue serão hoje, agora e sempre a nossa vida… e no infinito desconhecido viveremos neles, nos seus corpos, nos seus rostos, nos seus olhos, na lembrança das nossas descendências passadas, de um amor com significado…a nossa herança, oferenda futura…

…Criados de igual forma, com os mesmos princípios, valores, amor…foram desde o primeiro momento muito diferentes; personalidades fortes, os mesmos valores de honestidade, de verdade, bondade, caridade, embora com formas quase opostas de pensar e ser…

…O mais velho, sempre teve uma enorme alegria de viver, traquinas, com um coração enorme, bondoso, verdadeiro, muito impaciente, aventureiro, destemido e duramente frontal e sincero; o que por vezes magoa, mas…o seu enorme carinho pelo próximo logo colmata esta sua característica própria de um homem do qual muito me orgulho…

…O mais novo, o meu pequenino, com nome de pintor, escultor… nasceu numa noite de chuva de Dezembro, numa sexta-feira 16, numa terra para mim desconhecida até então…

…Lembro-me como se fosse hoje…aquela ultima dor…um ligeiro grito, lágrima de alegria, sorriso de amor, suspiro de alivio, um desespero na possibilidade da perda, uma preocupação angustiante e o decorar de cada pormenor do seu pequenino corpo, cada ruga, cada cabelinho loiro, tudo… para não o perder, nunca, ao meu segundo filho…que era só meu…

…Tinha uma enorme vontade de nascer, de conhecer o Mundo, conhecer-me a mim, ao Pai e ao Irmão; nasceu um mesinho antes do tempo, 8 meses, com os olhos fechados, rasgados, uma criança linda nos meus braços… que ainda hoje consigo abraçar…

…Foi crescendo, dia após dia e como era bonito o meu doce filho, loirinho, pele branquinha, com um sorriso maroto, mas… sempre muito calado; observava o Mundo, não exteriorizava nada, apenas sorrisos e um olhar de ternura…

…Ninguém imaginava o que pensava, perdido em pensamentos que só ele poderá explicar procurava a perfeição em tudo, o que por vezes me angustiava, consumia-se a ele próprio na vontade excessiva de fazer bem, de ser correcto, perfeito perante os meus olhos, vivia para mim e Eu sabia que o fazia…

…No que tocava levava ao extremo em acções e sentimentos…nos estudos, nas amizades, em tudo o que fazia tentava fazer bem, o melhor que podia e sabia, aprendia pelos erros dos outros, na arte da observação alheia, especialmente nos erros do irmão mais velho; aprendia assim a não errar, a não desiludir… não queria, não podia…e como se consumia nesse fardo que impôs desde muito cedo a si próprio. Quando errava, nem que fosse ligeiramente…o desespero, as lágrimas, a obsessão do seu extremo invertia-se na desilusão…

…Nós precisamos de errar, por vezes necessitamos, precisamos, mas ele nunca quis, ou não soube acreditar na verdade… e Eu nunca o soube corrigir, ou talvez corrigi, não sei sinceramente se podia ter feito algo mais; não podia criticar o meu filho por fazer bem…critiquei, gritei, chorei, sorri… fiz tudo ao meu alcance e não me arrependo em nada do que fiz; apenas acho que o meu filho ficou adulto mais cedo que devia, mais cedo que a Natureza permite e que aconselha…

…A sua infância desvaneceu-se do meu olhar, sempre com um sorriso, viveu como queria e gostava, desconhecendo a parte negra da sua característica própria no qual o seu pensamento e personalidade o fez cair…

…Na adolescência tornou-se independente, solitário, começou a fazer tudo sem o conhecimento dos que o podiam criticar, julgar, queria viver e procurar os seus valores de verdade e conceitos que os Pais lhe ensinaram…

…A sombra de si próprio, o desconhecimento da sua vida, os amigos … guardava em segredo, em palavras não ditas, em formas diferentes de ver…pedaços da sua vida que achava que poderiam ser mal interpretados, mas… não eram, eram saudáveis; poderia pensar que Eu e o Pai não sabíamos, e até poderíamos não saber muita coisa, mas sabíamos muito, e adorávamos tudo o que víamos…o caminhar, o viver, o sentir a vida, de uma forma curiosa, mas viva…

…O tempo trouxe-lhe a maturidade, o aspecto de homem: moreno, alto, magro…um aspecto diferente vitima da inevitável transformação física da idade, embora o seu interior continue com muitas das suas características de criança; de quando era o meu menino… principalmente aquele seu sorriso e expressão no olhar independente do seu pensamento, dos seus eternos e particulares sentimentos…

…Conta-se em poucas palavras a história até hoje do meu filho mais novo, nasceu numa sexta-feira 16, numa noite de Dezembro… num dos dias mais felizes da minha vida, adoro-o com todos os defeitos e virtudes que tem, e tem de certeza ambos…mas aos meus olhos os defeitos misturam-se com qualidades e estas com Amor… poderão ser apenas palavras, sentimentos, olhares de quem Ama, mas que sejam!!… São meus!! E estarão sempre comigo…sempre! …nem que seja num dia pelas asas do desconhecido, pela esperança na eternidade ou pela voz de um Anjo…”

…Um beijo para quem me Ama…


MABA