“Porque me perguntas?”
“Nem sei o que te
responda… são espelhos quebrados de mim ou vidros que cortam e invadem
silêncios.”
“Não sei se gosto das
recordações desse tempo… dos sorrisos. O fechar de mãos como flores, o esticar das
pontas dos dedos, alinhados, longilíneos, escondidos do resto do corpo,
nostalgia ou perdição, dever ou ambição… reflexos de um eu que sempre existiu
ou lamina translucida do que queria para mim…”
“Não sei se me
lembro das imagens que aquele tempo me traz, do chão que ainda hoje teimo em
não pisar e nem sei se o quero, posso ou consigo esquecer. Os cheiros, o suor
confuso dos sons que ainda trago na memória, o sofrimento do prazer e o desespero
que me consumiu."
“Sinceramente nem
sei porque te respondo…”
“Cheguei a
cobrir-me de feitiços, de loucura, sempre directa e crente, talvez por
instintivos verdadeiros em actos de amor, tentativas vãs de me ver livre dos
pedaços de vidro que nos separava e nos marcou dia após de dia do reflexo que
nos unia e poderia e deveria nos unir de noite."
“Tudo me levava aquele chão, aquele tapete, aquele
grito, aquela esperança de um acordar dele, um acordar e crescimento ambicioso,
de uma dança a dois, que me habituei a dançar, sozinha, não por paixão,
por amor.”
“Imaginei que poderia
arrancar de mim esses vidros que me sucumbiam e trespassam-me a pele, sim! Presente!
Ainda agora os sinto… e como é difícil. Sabes? Tenho a pele demarcada por
tempos e vontades, fios de sangue como cordas de desespero, quebrei… em pedaços
as lágrimas de chuva que reflectiam a impotência da resolução de diferenças, a
barreira de um vidro em detrimento de um espelho reflectido.”
“Respondo-te porque
não imaginas como sou, como fui, como vou ser… “
“Mulher! É pouco,
imagina algo maior e atingível por respeito, nada menor... anseio. Farto-me fácil
de beijos e promessas simples, essas marcas na pele como troféus exibidos sem autoridade,
abraços que me sufocam e não desejo.”
“Quero ter perto alguém sem ter que me
aproximar. Não quero quem tome conta de mim… do meu amor, dos meus gostos, do
meu corpo… mas sim alguém que seja o espelho do meu afecto, desejo, do meu
cheiro e determinação, odor, perseverança e sabor…e como é bom ter o sabor de
alguém só nosso, partilhado e não defraudado.”
“Respondo-te porque
sei finalmente quem sou… “
“Não é fácil desistir
das pequenas coisas e não quero desistir, mereço! Os pormenores para além das
responsabilidades, uma roupa bonita para ir para o trabalho. Sapatos! Que bom! E
a escolha de um perfume que combine com o tempo que faz lá fora, ou com a nossa
pele, ou com o nosso gosto em alguém."
“Não quero desistir
nem dos jeitos que dou ao cabelo e que ninguém repara…como quero ter alguém e
que ele sim e só ele…repare. Desisti em tempos do meu gosto, da minha essência,
de coisas simples e outras mais importantes e especialmente esqueci-me por
vezes de mim e não posso nem nunca mais me vou esquecer… e quero ter alguém que ajude a não o fazer.”
“É engraçado como
um pequeno gesto de uma mão, um telintar e rodopiar de dedos pode mudar a minha
vida e de outros. Um espaço invadido por presenças estranhas que torna um
vidro, um simples vidro no qual se consegue olhar e ver alguém sem tocar como
inverter essa mão de prata…e com esse poder, que todos possuímos, especialmente
uma Mulher! Conseguir quase tudo…”
“Não te rias! É
verdade! O poder de saber, sentir, comandar e quem sabe manusear essa
superfície opaca e translucida para que seja lisa ao ponto de reflectir uma luz,
a minha, a tua, que nos possa olhar, avaliar e julgar envoltos em camada de ouro,
prata ou ingenuamente…de nada.”
“Porque me olhas
assim e continuas a perguntar?”
“Respondi que é
fácil rodopiar as mãos e esquecer os Homens que me amaram…”
“Que posso tocar ao
de leve nos vidros que me cercam e ver os Homens que amei…”
“Respondi que
posso dançar nas sombras da solidão e fugir da incompreensão das vontades dos
outros…”
“Que posso vaguear
sem destino e incertezas no vazio como parar seminua à beira de uma estrada sob
desígnios de perdição…”
“Que tudo poderá
ser fácil de arrumar, queimar, rodopiar ou quebrar… Mas nunca esquecerei a
minha alma reflectida nos espelhos de quem me inspira, faz acreditar e viver…”
“ E sabes porque
te respondo? Talvez por ajuda, reflexo, saber!”
“Porque sei que quem dança em chão de espelhos prateados, água
limpa de inspiração e certeza… o seu fim surgirá naturalmente e por amor.”
“Porque sei que quem pisa as
folhas douradas, vidros escamoteados de falsas promessas… a morte chegará a si, só, lentamente
e sem sabor.”
“Respondi à tua Pergunta?”
“Não?”
“Não?”
Foto: Autor Desconhecido
Texto: MABA

