Tuesday, August 06, 2013

Mão de Prata


“Porque me perguntas?”

“Nem sei o que te responda… são espelhos quebrados de mim ou vidros que cortam e invadem silêncios.”
“Não sei se gosto das recordações desse tempo… dos sorrisos. O fechar de mãos como flores, o esticar das pontas dos dedos, alinhados, longilíneos, escondidos do resto do corpo, nostalgia ou perdição, dever ou ambição… reflexos de um eu que sempre existiu ou lamina translucida do que queria para mim…”
“Não sei se me lembro das imagens que aquele tempo me traz, do chão que ainda hoje teimo em não pisar e nem sei se o quero, posso ou consigo esquecer. Os cheiros, o suor confuso dos sons que ainda trago na memória, o sofrimento do prazer e o desespero que me consumiu."

“Sinceramente nem sei porque te respondo…”

“Cheguei a cobrir-me de feitiços, de loucura, sempre directa e crente, talvez por instintivos verdadeiros em actos de amor, tentativas vãs de me ver livre dos pedaços de vidro que nos separava e nos marcou dia após de dia do reflexo que nos unia e poderia e deveria nos unir de noite."
 “Tudo me levava aquele chão, aquele tapete, aquele grito, aquela esperança de um acordar dele, um acordar e crescimento ambicioso, de uma dança a dois, que me habituei a dançar, sozinha, não por paixão, por amor.”
“Imaginei que poderia arrancar de mim esses vidros que me sucumbiam e trespassam-me a pele, sim! Presente! Ainda agora os sinto… e como é difícil. Sabes? Tenho a pele demarcada por tempos e vontades, fios de sangue como cordas de desespero, quebrei… em pedaços as lágrimas de chuva que reflectiam a impotência da resolução de diferenças, a barreira de um vidro em detrimento de um espelho reflectido.”

“Respondo-te porque não imaginas como sou, como fui, como vou ser… “

“Mulher! É pouco, imagina algo maior e atingível por respeito, nada menor... anseio. Farto-me fácil de beijos e promessas simples, essas marcas na pele como troféus exibidos sem autoridade, abraços que me sufocam e não desejo.”
 “Quero ter perto alguém sem ter que me aproximar. Não quero quem tome conta de mim… do meu amor, dos meus gostos, do meu corpo… mas sim alguém que seja o espelho do meu afecto, desejo, do meu cheiro e determinação, odor, perseverança e sabor…e como é bom ter o sabor de alguém só nosso, partilhado e não defraudado.”

“Respondo-te porque sei finalmente quem sou… “

“Não é fácil desistir das pequenas coisas e não quero desistir, mereço! Os pormenores para além das responsabilidades, uma roupa bonita para ir para o trabalho. Sapatos! Que bom! E a escolha de um perfume que combine com o tempo que faz lá fora, ou com a nossa pele, ou com o nosso gosto em alguém."
“Não quero desistir nem dos jeitos que dou ao cabelo e que ninguém repara…como quero ter alguém e que ele sim e só ele…repare. Desisti em tempos do meu gosto, da minha essência, de coisas simples e outras mais importantes e especialmente esqueci-me por vezes de mim e não posso nem nunca mais me vou esquecer… e quero ter alguém que ajude a não o fazer.”
“É engraçado como um pequeno gesto de uma mão, um telintar e rodopiar de dedos pode mudar a minha vida e de outros. Um espaço invadido por presenças estranhas que torna um vidro, um simples vidro no qual se consegue olhar e ver alguém sem tocar como inverter essa mão de prata…e com esse poder, que todos possuímos, especialmente uma Mulher! Conseguir quase tudo…”
“Não te rias! É verdade! O poder de saber, sentir, comandar e quem sabe manusear essa superfície opaca e translucida para que seja lisa ao ponto de reflectir uma luz, a minha, a tua, que nos possa olhar, avaliar e julgar envoltos em camada de ouro, prata ou ingenuamente…de nada.”

“Porque me olhas assim e continuas a perguntar?”

“Respondi que é fácil rodopiar as mãos e esquecer os Homens que me amaram…”
“Que posso tocar ao de leve nos vidros que me cercam e ver os Homens que amei…”
“Respondi que posso dançar nas sombras da solidão e fugir da incompreensão das vontades dos outros…”
“Que posso vaguear sem destino e incertezas no vazio como parar seminua à beira de uma estrada sob desígnios de perdição…” 
“Que tudo poderá ser fácil de arrumar, queimar, rodopiar ou quebrar… Mas nunca esquecerei a minha alma reflectida nos espelhos de quem me inspira, faz acreditar e viver…”

“ E sabes porque te respondo? Talvez por ajuda, reflexo, saber!”

“Porque sei que quem dança em chão de espelhos prateados, água limpa de inspiração e certeza… o seu fim surgirá naturalmente e por amor.”
“Porque sei que quem pisa as folhas douradas, vidros escamoteados de falsas promessas… a morte chegará a si, só, lentamente e sem sabor.”

“Respondi à tua Pergunta?

Não?” 


Foto: Autor Desconhecido 
Texto: MABA